
As reuniões do nosso Cineclube Hitchcock funcionavam às sextas-feiras, pela manhã, na parte de trás do Cine São João, na cidade de Santa Rita, numa sala de primeiro andar, que havíamos criado. Era uma maneira de se discutir artes naqueles tempos de “chumbo”, mesmo sob receio de todos. Fazia parte do nosso grupo meu primo Reginaldo Oliveira, que no futuro seria advogado, assim como eu.
Filmes de temática não provocativa ao regime, de conotação não política, como “Morangos Silvestres”, do cineasta sueco Ingmar Bergman, ou mesmo de vanguarda, do francês Godard, tinham prioridade nossa e podiam ser exibidos sem nenhum problema, apenas sob o registro prévio na Polícia Federal, em João Pessoa.
A partir de então, todos os filmes programados do nosso cineclube e dos cinemas da cidade e de todo o país tinham que passar pelo crivo da censura, para que os federais dissessem se podiam ou não ser mostrados ao público. Uma prática autoritária sempre repudiada, inclusive pelo meu pai, enquanto empresário exibidor, que sempre me advertia a não criar problemas junto à censura, com o cineclube.
Mesmo assim, tentando burlar o sistema, nós, do cineclube, resolvemos exibir, às escondidas, o filme de Glauber Rocha “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Nada de exposição de cartazes e fotografias do filme na sala do cinema, nenhuma divulgação prévia pelo jornalzinho da paróquia; nada. Tudo seria feito sem que ninguém soubesse da exibição do filme em questão, a não ser os integrantes do cineclube, que combinaram em reunião de sigilo absoluto.
Era uma manhã de domingo ensolarada, do ano de 1964, e estávamos todos eufóricos e já acomodados na sala de projeção do Cine São João. Nem bem havia iniciado a sessão, quando entraram de repente dois policiais com mandado em punho. Como autênticos nazistas fardados, um deles, com dedo em riste, foi logo gritando:
– Parem a sessão!
Um dos tais, de aparência truculenta, indagou furiosamente:
– Quem é o responsável por isso aqui?
Eu tremi as pernas. Meu pai não estava presente e quem quer que fosse o responsável, a julgar pelos recentes ocorridos de prisão e arbitrariedades, naquele momento, jamais se acusaria. Não era hora para atitudes heroicas.
– Pois bem, o filme está confiscado. – Sentenciaram e foram logo subindo a escadaria, que conferia acesso à cabine de projeção, onde estava o operador Zé Alonso, a quem entregaram o papel, dizendo para comparecer no dia seguinte à Polícia Federal, em João Pessoa. Depois, juntaram as latas do filme num saco, levando-o embora, para nossa grande decepção. Uma situação que “poderá” se repetir nos dias de hoje, se ocorrer o que jamais desejamos.
INSCRIÇÕES PARA CONCORRER À VAGA DA CADEIRA No 36 DA ACADEMIA PARAIBANA DE CINEMA
Em observância aos Artigos 5 e 7 do Estatuto da Academia Paraibana de Cinema e ao que ficou decidido na Sessão Ordinária de sua Diretoria, encontram-se abertas na Secretaria da APC, na Fundação Casa de José Américo, localizada na Av. Nossa Senhora dos Navegantes, na Unidade de Tambaú (FCJA), em João Pessoa/PB, as inscrições para concorrer à Cadeira n0 36 da entidade, que tem como patrono Newton Monteiro, e que vinha sendo ocupada pelo associado Marcos Pires, recentemente falecido. As inscrições podem ser feitas até o dia 25 de novembro deste ano. O candidato deverá apresentar a documentação seguinte:
1 – Comprovante de que é paraibano nato, ou que reside no Estado da Paraíba há mais de cinco anos;
2 – Currículo indicando participação na atividade cinematográfica e áudio visual, além de outras informações que julgar pertinentes.
João Pessoa, 25 de outubro de 2026
JOÃO DE LIMA GOMES
Presidente da APC