Uma batalha esquecida que mostra as incertezas do ser

Foto: O ator Gijs Blom vive os conflitos de um soldado naszista, em A Batalha Esquecida.

Poucos são os dramas de guerra que dão destaque à natureza humana de seus personagens. Que tenham usado de uma narrativa que transcenda ao mero registro violento dos combates e que busque, nas dúvidas de alguém dessas batalhas outros conflitos, a mudança de atitude diante da selvajaria da guerra.

Esta semana, assisti a uma das boas estreias da Netflix, que traz por título “A Batalha Esquecida”, com direção de Matthijs van Heijningen Jr. Filme que me fez lembrar de uma outra grande obra do gênero: “A Balada do Soldado”, realização do soviético Grigori Chukhrai, se não me engano, uma discutida produção do final da década de cinquenta, inclusive indicada ao Oscar. Apesar de enfocar o tema da guerra, é um filme também altamente sensível.

Um outro drama deveras interessante e que me chega agora à memória é “O Pianista” de Roman Polanski. Filme que trata com bastante acuidade a conduta humana frente ao caos e escombros de uma guerra tirana, onde um dos clãs de maior destaque é o Nazismo. Um nazismo cuja arrogância vimos curvar-se diante do simples gesto de um solitário pianista sobrevivente nos entulhos de uma cidade polonesa bombardeada, respeitando sua habilidade instrumental ao executar parte de uma grande obra de Chopin.

O contrapondo analítico que Polanski constrói, em razão da dubiedade da natureza humana do oficial alemão, mesmo sob seu fausto domínio, no exato momento em que descobre sob os escombros de um sobrado destruído aquele senhor esquálido e faminto, é deveras simbólico para a humanidade, no filme.

No caso de “A Batalha Esquecida” a mudança de comportamento humano então acirrado, em razão dos constantes combates entre tropas canadenses e alemães, ocorre em alguns instantes do filme. Um soldado nazista e seus iguais no front de batalha contra os aliados estão sendo dizimados, enquanto batem em retirada nas terras holandesas e pelo Rio Escalda. Mas a atrocidade do conflito armado é muito menor do que o sentido do medo e da angústia de um desses soldados nazistas, interpretado pelo ator Gijs Blom. Durante todo filme ele se mostra humanamente reflexivo sobre sua participação na guerra. Agora mais ainda, ao ver uma jovem holandesa (Susan Radder) e sua família presas a um conflito que não merecem.

As cenas finais são de tirar o fôlego, fazendo-nos questionar até onde as resistências física e metal, frente às situações de combates podem aguentar.  Na fuga, o Marinus nazista entra em confronto individual com seu perseguidor canadense Tony (Tom Felton) e, em ambos, o gesto de renúncia homicida ao se defrontarem, ameaçadoramente. A esse conflito humano temos um outro ainda mais crucial, quando, no cárcere, a jovem é ameaçada de morte e estupro por um dos nazistas e é defendida pelo próprio Marinus, que vem a falecer nos braços da jovem, em razão do confronto com seu compatriota, que também morre.     

Levando em conta as três vidas diferentes que se cruzam no meio do caos – o soldado nazista, o militar canadense e a jovem –, cada uma delas a subsistir àquele conflito sob perspectivas diferentes, veja-se, então, a sua real mensagem… É uma produção com cenas de batalhas bem construídas, cujo lançamento em streaming aconteceu no ano passado. Mas o que se deve extrair desse filme é a sua lição de humanidade, mesmo entre os aliciados inimigos.


APC: Zezita reabre cineclube no interior

A presidente da Academia Paraibana de Cinema, atriz Zezita Matos, foi convidada e acetou participar da reabertura do Cineclube “Livio Wanderley” do Memorial “Casa de Severino Cabral”. O evento aconteceu no início desta semana, em Campina Grande.

Durante a programação foi exibido o documentário “O Olhar de Zezita”, da videomaker Mercicleide Ramos, e logo após aconteceu um recital lítero-musical “Molduras Poéticas”, e acompanhamento do músico Carlyto Campos, com apresentação em cena da própria Zezita Matos.

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