“No Portal da Eternidade”: um novo plasmar estético

Ator Willem Dafoe na magistral interpretacao de Vincent van Gogh
Ator Willem Dafoe na magistral interpretação de Vincent van Gogh.

Quem conhece a biografia do cineasta Julien Schnabel e assistiu ao seu filme O Escafandro e a Borboleta, premiado com Melhor Direção no Festival de Cannes de 2007, vai entender melhor o enlevo do cineasta pela história de um dos pintores mais consagrados do mundo. Por isso mesmo, retratado em sua mais atual realização: No Portal da Eternidade (At Eternity’s Gate), uma produção de 2018, que acabo de ver pelo streaming.

Mesmo sendo, como ele mesmo afirma ser, um judeu norte-americano, o cineasta Schnabel (mas, com um “Julien” no nome bem à francesa) tem uma visível simpatia pelo cinema europeu. Seus dois últimos filmes ganham uma espécie de aura francesa – Miral (2010) e No Portal da Eternidade. Este, em particular, sobre Vincent Van Gogh, que em semana recente completam cento e trinta anos de sua morte.

Antes, porém, como afirmei no início, conhecendo-se melhor a biografia do diretor, sabe-se do seu manifesto desejo criativo inicial: a pintura. Daí a importância vinculativa de Schnabel com o tema e a vida de Van Gogh, de que trata o seu mais recente filme. Mesmo que o próprio diretor, enquanto artista plástico, reconhece-se de uma geração do movimento neo-expressionista, ao contrário, o personagem que abordou em seu filme. Van Gogh é um dos brilhantes representantes do Impressionismo. Movimento de arte que nos leva ao cineasta francês Jean-Luc Godard e suas visões abstratas, no seu mais recente Imagem e Palavra. Filme que também comentei recentemente.

Com uma narrativa cheia de expectativas, No Portal da Eternidade nos traz a performance de um personagem singular, mas perturbado durante toda sua trajetória de vida. Como terá sido na realidade Vincent Van Gogh. Desde criança, filho de pastor protestante de uma cidadezinha da Bélgica, o menino sofreu de alguns fantasmas existenciais.

Mas o filme não trata dessa sua passagem como criança, iniciando já no vilarejo de Arles, na Provence, no sul da França, onde o artista fixa residência, já aos trinta e cinco anos de idade. Ali, ele encontra o que para ele sempre faltou à sua pintura: as cores e a luz do sol, o que jamais conseguira em Paris.

Numa taberna, onde marchands e artistas discutem o valor das obras ali expostas, Van Gogh faz amizade com um outro pintor, Guauguin, que mais tarde seria igualmente famoso. Ambos passam a morar na mesma residência e a trabalharem juntos. Mas, não dá certo e vem o ápice das alucinações de Van Gogh, em decepar parte de uma de suas orelhas.

Trata-se de uma obra densa, emocional, com excelente performance do ator Willem Dafoe vivendo o pintor Vincent Van Gogh. Cuja percepção das coisas é profunda, desde uma visão ampla e amarelada dos campos cobertos de girassóis a uma gota de orvalho sobre simples folha. A câmera, que parece assumir posição “óptica” do próprio personagem em cena, imprime uma ação visual sempre atormentada, captando de forma nervosa as situações, como se “pintando” uma narrativa diferenciada. Que terá sido a do próprio Vincent. Um filme singular, que me fez lembrar de quando estive certa vez numa das galerias do Louvre, em Paris, a contemplar a verdade pictórica e eterna da obra de Van Gogh.


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A.S. Produções Cinema e Vídeo, afiançada pelos seus coprodutores Alexandre Menezes, Mirabeau Dias, Manoel Jaime Xavier e Moacir Barbosa de Sousa, deverá ter suas produções audiovisuais “Antomarchi” e “Américo – Falcão Peregrino” no streaming,agora em setembro. A divulgação das obras faz parte do programa de ação cultural da Academia Paraibana de Cinema sobre a Cidade de João Pessoa, sua Cultura e Urbanidade. Conforme o titular da empresa produtora, Alexandre Menezes, o programa vem em bom tempo, justamente ao celebrarmos 435 anos da nossa Capital, quando seus costumes e urbanidades são muito bem cenografados em ambas as obras paraibanas.

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